Diagnóstico
Como preparar a consulta de avaliação de TEA e organizar os documentos
Checklist do que levar (histórico, vídeos, relatórios da escola, exames), como guardar laudos e relatórios e o que pedir por escrito ao médico para não travar plano de saúde, escola e benefícios.
Uma consulta de avaliação de transtorno do espectro autista (TEA) rende muito mais quando a família chega preparada. O médico precisa reconstruir a história do desenvolvimento, e a maior parte da informação está com vocês, não no consultório. Além disso, os documentos que saem dessa consulta (laudo, prescrição) serão usados por anos: no plano de saúde, na escola, na CIPTEA, no INSS.
Este guia é um checklist prático: o que levar, como organizar e o que pedir por escrito.
Antes da consulta: o que reunir
1. Histórico do desenvolvimento (por escrito)
Faça uma lista, em ordem cronológica, com datas aproximadas. Não precisa ser bonito; precisa ser completo.
- Gestação e parto: intercorrências, prematuridade, internação.
- Marcos: quando sustentou a cabeça, sentou, andou, primeiras palavras, primeiras frases. Se houve perda de habilidades (parou de falar, parou de olhar), anote quando.
- Comunicação: aponta? Olha quando chamado pelo nome? Usa gestos? Repete frases (ecolalia)? Como pede o que quer?
- Interação: interesse por outras crianças, brincadeira de faz de conta, resposta a sorrisos, contato visual.
- Comportamentos repetitivos: movimentos com mãos ou corpo, alinhar objetos, interesses muito intensos, apego a rotinas.
- Sensorial: reação a barulho, luz, texturas de roupa e comida, dor.
- Sono e alimentação: como dorme, seletividade alimentar.
- Saúde: convulsões, infecções de ouvido, alergias, medicamentos em uso.
- Histórico familiar: TEA, TDAH, deficiência intelectual, epilepsia, transtornos psiquiátricos em parentes.
- Quando começou a preocupação, quem levantou a suspeita e o que já foi feito.
2. Vídeos curtos
Grave em situações naturais, sem "montar cena": brincando sozinho, interagindo com irmão ou colega, na hora da refeição, em uma crise, falando ou tentando se comunicar. Vídeos de 30 segundos a 2 minutos bastam. Organize em uma pasta no celular com data.
3. Relatórios da escola ou creche
Peça por escrito à coordenação ou professora um relatório sobre interação, comunicação, comportamento, aprendizagem e o que já foi tentado. Escolas costumam ter modelo próprio. Se a escola não fornecer, anote você mesmo o que relataram verbalmente, com data.
4. Exames e avaliações anteriores
Leve tudo o que já existe: audiometria ou BERA (avaliação auditiva é frequentemente pedida para descartar perda auditiva), exames de imagem, exames genéticos, avaliações de fonoaudiologia, psicologia ou terapia ocupacional, laudos anteriores, caderneta de vacinação e de saúde da criança.
5. Dúvidas e objetivos
Escreva as 5 perguntas mais importantes para você. Na consulta, o tempo é curto e a ansiedade atrapalha.
6. Documentos pessoais
RG e CPF da pessoa avaliada e do responsável, carteirinha do plano, cartão SUS.
Durante a consulta
- Se possível, vá com outro adulto que conheça a criança: um anota enquanto o outro conversa.
- Responda com exemplos concretos ("ele empilha os carrinhos por cor e chora se alguém mexe") em vez de rótulos ("ele é organizado").
- Pergunte o que vem depois: precisará de outras avaliações? Quem faz? Em quanto tempo volta?
- Se o médico disser "vamos observar", pergunte por quanto tempo e o que observar. A Lei 12.764/2012 garante o direito ao diagnóstico precoce, ainda que não definitivo (art. 3º, III, "a"); esperar não pode significar ficar sem nenhuma orientação ou intervenção.
O que pedir por escrito ao final
Estes documentos são a base de tudo o que vem depois. Peça no mesmo dia, ou combine a data de entrega.
Laudo ou relatório médico
Deve conter, no mínimo: identificação da pessoa, descrição clínica, código CID, data, nome, assinatura e CRM do médico. Detalhes em Laudo médico para TEA: o que deve conter.
Prescrição das terapias com frequência e carga horária
Isso é o que mais falta nos documentos que as famílias recebem, e é o que o plano de saúde usa para autorizar (ou negar) sessões. Peça que o médico especifique, por exemplo: "psicologia (intervenção comportamental), 3 sessões semanais de 1 hora; fonoaudiologia, 2 sessões semanais; terapia ocupacional, 2 sessões semanais", com justificativa clínica e período estimado. Quanto mais específica a prescrição, menos margem para o plano reduzir. Nos planos regulados, a cobertura segue a prescrição do médico assistente (Lei 9.656/1998; Lei 14.454/2022).
Encaminhamentos
Pedidos de exames complementares, encaminhamento para outras especialidades e, se for o caso, para o CAPS ou CER.
Relatório para a escola
Um documento simples, em linguagem acessível, descrevendo necessidades de apoio e sugestões de adaptação. A escola precisa dele para organizar o atendimento educacional especializado e, se necessário, o profissional de apoio. Veja Escola.
Como guardar tudo (e não perder)
Monte uma pasta física e uma digital, com a mesma organização:
- Identificação: documentos pessoais, cartão SUS, carteirinha do plano, CIPTEA.
- Laudos e relatórios médicos, do mais recente para o mais antigo.
- Prescrições de terapias, com data.
- Relatórios de terapeutas (peça um a cada 3 ou 6 meses; são exigidos pelo plano e úteis na escola).
- Escola: relatórios, plano educacional individualizado, atas de reunião, e-mails.
- Plano de saúde: protocolos, autorizações, negativas por escrito, comprovantes de reembolso.
- Recibos e notas fiscais de terapias e consultas (imposto de renda e reembolso).
- Benefícios: protocolos do INSS, CIPTEA, passe livre, isenções.
Dicas:
- Digitalize tudo no mesmo dia (foto legível ou scanner do celular) e salve na nuvem com nome padronizado:
2026-09-07_laudo_neuropediatra.pdf. - Nunca entregue o original sem ficar com cópia. Quando um órgão exigir original, leve e traga de volta, ou peça cópia autenticada.
- Anote em um caderno ou planilha cada contato com plano, escola ou órgão: data, nome de quem atendeu, protocolo, o que foi dito.
- Peça sempre negativas por escrito. Uma negativa verbal não serve para recorrer.
Erros comuns que atrasam tudo
- Sair da consulta sem a prescrição detalhada de terapias.
- Laudo sem CID ou sem CRM legível.
- Deixar o laudo "vencer" segundo exigência de um órgão sem checar se a exigência tem base (veja o artigo sobre validade do laudo).
- Perder recibos de terapias e deixar de deduzir no imposto de renda.
- Aceitar redução de sessões pelo plano por telefone, sem documento.
Próximos passos
- Leia Laudo médico para TEA: o que deve conter antes da consulta.
- Escolha o profissional certo em Quais profissionais atendem TEA.
- Com o laudo em mãos, emita a CIPTEA na ferramenta CIPTEA.
- Se a avaliação for pelo SUS, localize o serviço na ferramenta SUS.
Perguntas frequentes
Preciso levar vídeos para a consulta?
Não é obrigatório, mas ajuda muito. Comportamentos que não aparecem no consultório (interação em casa, brincadeiras, crises, estereotipias, fala) podem ser mostrados em vídeos curtos, de 30 segundos a 2 minutos, gravados em situações naturais.
O que é mais importante pedir por escrito ao médico?
Duas coisas: o laudo com o código CID e a prescrição das terapias indicadas com frequência semanal e carga horária. Sem a prescrição detalhada, o plano de saúde tende a autorizar menos sessões do que o necessário.
Fontes
- Lei nº 12.764/2012 – Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Lei Berenice Piana) — Planalto, acessado em 07/09/2026
- Lei nº 13.977/2020 – Lei Romeo Mion – Cria a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA) — Planalto, acessado em 07/09/2026
- Lei nº 9.656/1998 – Dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde — Planalto, acessado em 07/09/2026
- Lei nº 14.454/2022 – Altera a Lei dos Planos de Saúde para estabelecer critérios de cobertura fora do rol da ANS — Planalto, acessado em 07/09/2026
- Lei nº 13.146/2015 – Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) — Planalto, acessado em 07/09/2026
- Linha de Cuidado para a Atenção às Pessoas com Transtornos do Espectro do Autismo e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do SUS — Ministério da Saúde, acessado em 07/09/2026
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